Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

Montalegre, em Trás-os-Montes, é bem capaz de ser um dos pedaços mais belos do país. Fica num vale rodeado por quatro conjuntos montanhosos elevados - Gerês, Larouco, Barroso e a galega Sierra del Pisco. A própria vila permanece a mil metros de altitude, o que ajuda a perceber a sua autenticidade. O isolamento é tremendo. Estrada alcatroada, electricidade e televisão são adventos recentes quando comparados com o resto do país. As casas, graníticas como o chão das ruas e as fragas dos montes que as rodeiam, mostram janelas pequenas. É reino esquecido, onde o espaço e o tempo parecem ter ficado cristalizados. E esse é o seu maior tesouro.



A região não é imune à desertificação que atravessa o Interior. Pela globalização ou por velhice, a velha cultura definha. Mas um grupo de rapazes começou a sinalizar percursos pedestres temáticos, a marcar e recuperar monumentos. Depois, pegaram em velhos usos e reactivaram-nos. As malhadas do centeio e as matanças do porco regressaram a algumas aldeias, atraindo visitantes. Sempre que uma sexta-feira calha a dia 13, a vila enche-se de forasteiros que querem beber as queimadas, recitar o responso para esconjurar as bruxas, tal como se fazia nas zonas mais isoladas do concelho. Assim nasceu o EcoMuseu de Barroso, há oito anos e sob os auspícios da autarquia.



David Teixeira, o director, está no projecto desde o início. Hoje lidera uma instituição com cinco pólos espalhados pelo município. «A única forma de sobrevivência é transformarmos as tradições em actividades economicamente rentáveis», explica. «Os saberes já cá estavam todos, foi só aproveitá-los.» No pólo de Tourém, por exemplo, há uma exposição de fotografia e vendem-se compotas e licores feitos no povoado. Em Pitões das Júnias, produzem-se meias e gorros de lã para abastecer as várias lojas do museu. Há mel, cogumelos e ervas medicinais. Há artigos em ferro forjado e esculturas em madeira. «Desde que abrimos as instalações, há um par de anos, nota-se uma dinâmica económica. Estamos a pensar criar uma loja no Porto e colocar os produtos em mais de 50 delegações do Turismo de Portugal. Quando começámos com isto, tivemos de convidar as pessoas para vender as suas coisas. Agora, temos gente a vir ter connosco para colocar artigos na loja.»



Foi o que fez Paulo Gonçalves, 34 anos, de Santo André, uma aldeia a 13 quilómetros de Montalegre. Pais e avós sempre viveram da terra – batatas, centeio e gado. Ele foi o primeiro da família a poder estudar e não perdeu a oportunidade. «Fiz-me engenheiro agrícola em Vila Real e, quando saí da universidade, vinha cheio de ideias.» Foi juntando dinheiro com os empregos que arranjava, às duas por três já tinha uma boa maquia. «Em 2009, decidi investir no gado e comprei 90 cabras. A minha ideia era fazer uma pequena queijaria e ir, como complemento, ir vendendo uns cabritos.» Saiu-lhe o tiro pela culatra. As regras sanitárias obrigavam-no a um investimento que não podia fazer. E o mercado da carne, pago a preços cada vez mais baixos, não se compadecia com as suas ideias. Paulo não tem ar de pastor. Calças de ganga rasgadas, uma camisa preta justa e havaianas nos pés atiram-no mais para um cenário urbano do que para os trilhos dos montes. Mas é do campo que ele gosta. «Prefiro a vida aqui, mas fiquei tão desesperado que pensei em emigrar. Então, no ano passado, tive uma ideia. Quando era miúdo via os velhotes fazerem sabão caseiro. E se eu fizesse sabonetes de leite de cabra barrosã?» Um produto novo com técnicas antigas. «Os artigos de qualidade, biológicos, funcionam. E isso eu já tinha. O resto é marketing.»



É ele mesmo que fabrica os sabonetes, na garagem de casa dos pais. As cabras vendeu-as todas menos quatro, que chegam e sobram para tirar leite. Depois, é misturar hidróxido de sódio, azeite, mexer tudo durante uma hora, a baixa temperatura. Deita-lhe as ervas – alfazema ou alecrim – e despeja tudo nos moldes. Deixa secar e corta à medida. Mandou fazer umas caixas de cartão cinzento, os olhos também compram. Na impressora faz os rótulos, que ele mesmo corta à tesoura. Tem as mãos feitas num oito, mas além das lojas do EcoMuseu já vende para uma casa em Braga e prepara-se para atacar outras em Lisboa. «Chamei-lhes Lookas, porque a minha mãe se chama Maria Lucas. E a coisa, vá lá, está a começar a pegar.»