Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

Um avião Interceptor atravessa o campo numa planagem épica, antes de se despenhar no chão. Cumpriu 13,51 metros, e isso é quase mais um metro do que o DragonFly tinha alcançado nessa manhã. Havia grande polémica sobre qual o melhor avião do mundo, o Interceptor ou o Dragonfly, mas Joaquim Hespanhol, de oito anos, nunca teve dúvidas. «O Interceptor é um avião completo, com as asas perfeitas e um voo muito seguro.» Sabe-o bem, até porque durante mais de uma semana treinou o lançamento dos dois modelos. Mas optou e pelos vistos optou bem. Com o Interceptor, Joaquim bateu o recorde do Concurso de Lançamento de Aviões de Papel, em Viseu.



Na cidade beirã, ao longo deste ano, lançam-se aviões de papel. São várias competições, para crianças e adultos, indoor ou ao ar livre. A culpa é de Rui Macário e do seu Projecto Património, uma associação cultural que fundou com a mulher para «Viseu deixar de ser olhada como uma cidade desgraçadinha, sem vida.» Pegou nas suas ideias, falou com a Câmara e com os demais agentes culturais da cidade e largou uma proposta: fazer um Ano Internacional Viseense. «É uma provocação, porque a ideia é que existam 366 anos internacionais, todos de seguida. Guimarães vai ser capital europeia da cultura em 2012 e tem um orçamento de 100 milhões de euros. Nós quase não precisamos de apoios para fazer a festa.»

O tema para o primeiro ano internacional é a vida de João Torto, um viseense que em 1540 ensaiou o primeiro voo livre, com umas asas construídas por ele mesmo, desde a torre da Sé até ao campo da feira de São Mateus. Falhou a aterragem e acabou por morrer com a tentativa. A lenda é maior que a comprovação histórica, mas Torto sempre serve de mote – 471 anos depois - a concursos de lançamento de aviões de papel, peças de teatro, publicação de livros, «uma série de intervenções artísticas no espaço público.»



A primeira competição em avioezinhos aconteceu no pavilhão multiusos da cidade, no Dia da Criança. Os participantes estavam definidos, eram alunos das escolas do eixo urbano de Viseu. Não havia adultos a concorrer, para eles está reservada uma nova edição, em Setembro, durante a Feira de São Mateus. Havia sim duas categorias competitivas – distância e decoração – e um bom milhar de participantes. «Não foi preciso ninguém pagar inscrição, a autarquia pagou isso. Ou melhor, nós fomos compensados pela ideia e pelo evento que organizámos. Mas normalmente, em tudo o que fazemos, as coisas acabam por financiar-se a si próprias», diz Rui Macário. «A cultura, ao contrário do que se diz, é um sector económico sustentável. Mais do que isso, gera riqueza.»

Quando Rui teve a ideia de fundar o Projecto Património, o seu pensamento era só um: pôr a sua cidade-natal a mexer, porque as estruturas e os protagonistas, esses, já lá estavam. Vivia no Porto, estudava História de Arte, e ria-se quando lhe diziam que voltar a Viseu era um risco. «Risco maior é uma vida a recibos verdes», atira. Chegou há três anos, abriu uma loja de produtos vintage – música, livros, pequenos objectos – e ala de contactar «a malta que fazia coisas na cidade». Desde então, Viseu tem vistas curtas (ciclos de curtas-metragens), cadernetas de cromos sobre a história da cidade, livros que faltavam publicar. Tem mil putos a atirar aviões dentro de um pavilhão porque um tipo teve uma ideia arriscada no século XVI e outro fez exactamente o mesmo no século XXI.