Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

Isto é o Douro interior, o rio e a vinha, vistos da margem sul. É difícil o caminho até Figueira de Castelo Rodrigo. Por um lado são curvas atrás de curvas, por outro a paisagem é de tal forma arrebatadora que convida a desviar o olhar da estrada. Stay cool, avisam os The Roots pelo rádio, e têm toda a razão. Aqui o tempo é mais ou menos assim: oito meses de Inverno, quatro de inferno. Por isso, quando se chega à vila, hesita-se em sair do carro. Apetece uma garrafa de água fresca, mas apetece ainda mais o ar condicionado do bólide.



É preciso acordar cedo para visitar a reserva da Faia Brava, caso contrário é insolação garantida. O termómetro há-de ultrapassar os 40 graus, mas por enquanto não sobe além dos 32. O carro só pode seguir até à aldeia de Algodres, a partir daí avança-se em todo-o-terreno. Alice Gama, 32 anos, segue ao volante. Bióloga portuense, estudou migrações de aves no outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos e na Costa Rica. Há um par de anos, mudou-se para o vale do rio Côa, um santuário de rapinas. É local de passagem e nidificação para cegonhas-preta, águias-reais, grifos, águias de Bonelli, abutres do Egipto, entre outros.

Há uma década, um grupo de biólogos que trabalhava no Parque Natural do Douro Internacional percebeu que o território ocupado pela avifauna ultrapassava largamente os limites da reserva. O vale do rio Côa era um dos locais de maior relevância. Ainda que estivesse protegido pela Rede Natura 2000, era território abandonado e dividido entre vários proprietários, que há muito haviam deixado a terra ser tomada pelas silvas. «Contactaram algumas fundações ambientais holandesas e suíças e pediram ajuda financeira para adquirirem terrenos», explica Alice. «E então compraram os primeiros 60 hectares, nas escarpas mais afiadas do vale.» Assim nasceu a associação Transumância e Natureza.



O grande incêndio que assolou a região em 2003 fez com que os biólogos percebessem que era urgente pôr um plano mais abrangente em acção. Nos terrenos queimados, plantaram oliveiras. Depois colhiam a azeitona, começaram a produzir azeite biológico, de altíssima qualidade. «Com esse dinheiro fomos comprando mais terreno. Já vamos em 800 hectares. O objectivo é continuar a crescer, expandir a zona protegida.»

A Faia Brava é a única reserva privada em Portugal. E isso, segundo Alice, é um bom negócio. «Abrimos as portas ao público em 2010 e num ano tivemos 800 visitantes, que pagam entrada e ajudam a financiar os nossos projectos. Depois vendemos cortiça, lenha e azeite. Também vendemos garranos, mas os donos têm de deixar os cavalos na reserva, em liberdade.» Além disso, criaram um campo de alimentação de aves necrófagas, com um abrigo discreto para que fotógrafos da natureza possam alugar o espaço e fazer imagens dos animais sem os incomodar. «Com este dinheiro, conseguimos limpar o mato e fazer vigilância aos incêndios 17 horas por dia. Além de comprar mais terreno, claro.»



O calor vai apertando e o relógio ainda não marca onze: estão 39 graus. Alice Gama vai encaminhando uma carrinha de caixa aberta por trilhos cada vez mais difíceis. Agora visita um moinho onde uma coruja das torres instalou o seu ninho. Depois pára junto a uma ravina, pega nos binóculos, põe-se a observar os abutres e os grifos. Conserta um bebedouro para pequenos mamíferos e ainda ajuda Sarah Pogue, uma irlandesa que está na reserva a fazer um estudo sobre invertebrados, a recolher o material.



O último posto do dia é uma torre de observação de incêndios. A bióloga verifica não haver problemas. É nos meses mais quentes do Verão que as vigias são feitas em continuidade e, na esmagadora maioria dos casos, com o apoio de voluntários. «Temos uma semana em que chegamos a receber 400 pessoas de todas as partes do mundo. E aí aproveitamos para fazer alguns trabalhos de fundo, como limpar matas e abrir corta-fogos. Durante o resto do ano, a falta de recursos humanos obriga-nos sobretudo a assegurar uma boa monitorização e conservação natural.» Desce as escadas da torre e, enquanto torna ao carro, suspira: «Ainda vamos crescer, e havemos de ter mais gente a trabalhar sempre», e bebe um golo de água, «a conservação da Natureza funciona, é sustentável.»