Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

Mãos amigas tinham oferecido a estes repórteres umas ramadas de manjerico, que agora seguiam penduradas no espelho retrovisor do carro. O caminho até ao Fundão cumpriu-se por isso com cheiro a Santos Populares e o calor do costume. A meta era a BioFun, uma fábrica de concentrados de fruta escondida numa estrada secundária a uma estrada secundária, algures entre a cidade serrana e Penamacor. Levar um mapa de 1995 é capaz de não ter sido a escolha mais certeira. Pode sempre argumentar-se que havia GPS nos telefones, mas os telemóveis precisam de rede para funcionar. A chegada, quando finalmente aconteceu, teve contornos de vitória.



A BioFun recebe frutas de todo o país, trata-as e processa-as para criar concentrados que podem mais tarde ser transformados em sumos, cidras ou vinagres. Miguel Madeira, que comprou a empresa em 2008 com um colega da faculdade e um sócio investidor estrangeiro, viu-se com um caso bicudo entre mãos. «Havia uma nítida subprodução, só se estava a aproveitar 20 por cento do que a fábrica era capaz de fazer. E não era por falta de mão de obra ou maquinaria. Deve-se unica e exclusivamente ao facto de Portugal estar a produzir fruta muito aquém da sua capacidade.» Dá um exemplo: para 260 mil toneladas de maçãs em Portugal, a Hungria, que tem mais ou menos a mesma dimensão, produz 550 mil toneladas. E ensaia uma explicação: «Os hipermercados deram cabo da agricultura no país. O preço que é cobrado ao consumidor final aumenta, mas não o que é pago ao produtor. Para as grandes cadeias aumentarem os lucros de uma forma gigantesca, sacrificou-se a agricultura.»



Miguel Madeira queria potenciar ao máximo a capacidade da BioFun, mas importar fruta iria encarecer os concentrados. Não era solução. Então lembrou-se de, em vez da quantidade, ir atrás da qualidade. Especificar o produto, explorar um nicho. «E há um ano começámos a produzir concentrados de fruta kosher.» Ou seja, sumos que seguem os preceitos da regra judia, sem introdução de enzimas de carne e, se se usarem de peixe, só sem escamas. «O rabino de Belmonte, que é a zona de maior tradição judaica em Portugal, já certificou os nossos concentrados segundo a lei Halacha. Neste momento estamos a exportar para Inglaterra, nos próximos meses vamos avançar para os Estados Unidos e Israel.»

Daqui a nada vai chegar um carregamento de maçãs golden à fábrica. Vêm de Mangualde, um camião cheio. São quase três toneladas a tombarem para um poço que se vai enchendo de água. A fruta é então encaminhada para um tapete hidráulico, entrando depois num moinho, onde é triturada, e nos tanques de polpa, onde é prensada. «O mais curioso disto tudo», diz Miguel, as mãos nos bolsos da bata branca, «é que os produtos que recebemos e os químicos que utilizamos já eram kosher. Nós é que não sabíamos.»



O mercado kosher, praticamente desconhecido em Portugal, está em franca expansão fora do país, garante o engenheiro. «A coisa é tão séria que, se nós baixarmos o preço dos concentrados, os clientes não lhes dão o mesmo valor e não compram tanto.» O seu objectivo é subir a facturação da empresa à moda judia, aumentar a seu tempo o quadro de 23 funcionários, quem sabe plantar pomares próprios. «Mas sem nunca perder a parte que dá mais gozo neste ofício. E isso é meteres-te no carro, sem rumo muito definido, à procura dos pequenos produtores de maçã, pêssego ou morango. É a parte da aventura e da descoberta. Queremos crescer. Mas queremos continuar modestos.»