Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

Raphael Bordallo Pinheiro, republicano assumido, recebia frequentemente visitas reais no seu atelier nas Caldas da Rainha. Raphael não era só Raphael, era mestre Bordallo. E D. Carlos era monarca dado às artes, apreciador da boa mesa e da boa conversa. Os homens eram amigos. E firmavam negócios. O rei encomendava vasos, jarrões, faianças, esculturas de animais para decorar o Paço de Vila Viçosa. Em 1900, pediu-lhe que surpreendesse o mundo na Exposição Universal de Paris e viu o seu desejo não só ser correspondido, como consagrado com uma medalha de ouro. A arte nova portuguesa era feita com os bons barros das Caldas, onde Bordallo tinha instalado uma fábrica em 1884.



A arte exigia moldes, que depois de usados eram guardados numa sala contígua aos fornos. Só que, depois da morte de Bordallo, a empresa seguiu um novo rumo. Empresas americanas e alemãs faziam grandes encomendas. Não queriam arte, queriam produção em série. Até hoje. Os desenhos e as formas vinham já definidos, o espaço à originalidade foi minguando. Os moldes do mestre haveriam de ficar encerrados no armazém contíguo à fábrica décadas a fio, ganhando pó, perdendo memória. E isso sempre causou algum desconforto a Carlos Camacho e Vítor Formiga, que trabalham na Bordallo há 30 anos.



Camacho é o encarregado de armazém, Formiga o chefe da modelagem. À noite, muitas vezes depois do turno terminar, entravam na sala de todos os esquecimentos e observavam os moldes do mestre. «Não havia nada catalogado, nada separado, era uma dor de alma. Não fazíamos ideia que partes que pertenciam a que peças. E então fomos pressionando os sucessivos donos das empresas para se fazer a separação e recuperação dos moldes», diz agora Camacho. Em 2004, a fábrica eos homens tinham consciência sabiam que uma parte da História da arte portuguesa corria sérios riscos de desaparecer para sempre. A redenção foi impulsionada de fora. Joana Vasconcelos, artista plástica, percebeu o potencial das cerâmicas Bordallo Pinheiro e encomendou algumas peças. Depois encomendou mais. E ainda mais. A arte do mestre podia muito bem ser a tábua de salvação da fábrica.

Camacho e Formiga passaram dois anos enfiados no armazém, a analisar cada pedaço de molde que encontravam. «Havia peças partidas em cacos dentro dos contentores, uma tragédia», conta Camacho. «Nós colámos tudo, recuperámos tudo». Formiga riposta. «E o trabalho que nos deu perceber o que era cada peça? As cerâmicas de Raphael Bordallo Pinheiro eram construídas como legos, que depois encaixavam. Às vezes tínhamos de encher um molde com barro para perceber que aquilo era uma folha que decorava um jarro, ou a antena de um caracol.»



Hoje, o armazém tem prateleiras cheias de moldes ordenados por temas. E cada molde tem escrito a marcador a peça que serve. Há lagostas, caracóis, cavalos-marinhos, cobras e golfinhos, um lobo de dentes afiados, um negro de dimensões humanas. Mas também há asas de vespas, patas de caranguejos, pétalas de girassol. «A descoberta que mais me surpreendeu no meio disto tudo», e Formiga ri-se meio para criar suspense, meio para ganhar fôlego, «foi ter encontrado pêlos e vestígios de sangue dentro do molde de uma cabeça de touro. Bordallo queria ser tão realista que usou mesmo animais.»



A fábrica de faianças Bordallo Pinheiro continua em grande medida a ser uma estrutura familiar, apesar de estar hoje nas mãos de um grande grupo económico (a Visabeira). A diferença é que nos últimos três anos tornou-se um projecto rentável, muito por culpa de um mestre morto há 106 anos e de dois homens que quiseram recuperar a sua obra. Hoje, a arte de Raphael representa 15 por cento das vendas da fábrica e a criatividade está de volta às Caldas, com novos artistas a fazerem trabalhos em cerâmica. Formiga e Camacho tiveram uma boa ideia, que foi apenas a de resgatar ao esquecimento um património já criado. «E o que mais valeu nisto tudo foi a emoção. Você consegue imaginar o que uma pessoa sente quando vê sair do forno uma cegonha que só tinha sido feita uma vez, há mais de cem anos? Em que o molde estava tão gasto e danificado que perdemos semanas a recuperá-lo? Ah, é um prazer muito grande.»