Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

Em Mora, a linha de comboio há muito que desapareceu, mas a estação ferroviária permanece de pé, abandonada no meio de um ermo, como se fosse uma casa fantasma. O edifício tem o telhado podre, e já não abriga ninguém da chuva, mas a verdade é que, por estes dias, ninguém na vila alentejana faz do espaço local de passagem. Excepto Luís Vasconcelos, fotógrafo e membro do colectivo Estação Imagem. Ele e os outros 14 membros da associação querem recuperar o prédio e torná-lo num centro documental de fotografia, numa galeria, num arquivo, numa residência artística. E isto já estão a fazer: tornar Mora numa espécie de centro português do jornalismo fotográfico.



O grupo formou-se há três anos, com alguns dos nomes mais importantes da fotografia portuguesa, mais dois escritores e um designer de monta. Desde que acabaram os Prémios Visão, o maior galardão de fotojornalismo do país tem sede aqui, numa estação que ainda não é. «Quisemos criar uma estrutura que pensasse a imagem, dando primazia ao documental», arranca Luis. «A escolha do local é afectiva. Já há muito que trabalhamos em projectos fotográficos nesta região, além de que eu e mais alguns temos aqui casas, conhecemos bem a zona.» Há um outro motivo, quase icónico, para se instalarem ali. Em Mora viveu António Gonçalves Pedro, dono de uma loja de ferragens que um dia ganhou a lotaria e decidiu gastar o dinheiro no seu sonho maior: montar um estúdio de fotografia. Luís recolheu o arquivo do homem, organizou-o, enquadrou em livro a história de uma comunidade inteira na segunda metade do século XX.

Luís Vasconcelos foi editor da revista Visão, fundador do jornal Público, fotógrafo oficial de Mário Soares quando este era presidente da República e ainda passou por todas as agências noticiosas do país. «Estou na fase certa da vida para desenvolver outro tipo de projectos, que não me liguem tanto à vida das redacções.» Acaba por ser ele o rosto alentejano da Estação Imagem, afinal é o único membro da trupe a viver em Mora. Mas o seu afastamento da imprensa também se explica pela falta de investimento que os jornais fazem por estes dias na reportagem, na ida para o terreno. «Está tudo sentado à secretária, a contar as mesmas histórias. Se não vais para a estrada não encontras histórias próprias e penso que, a prazo, os leitores não vão perdoar isso às publicações.» Luís não é seguramente o único dos elementos da Estação Imagem a pensar assim. Até porque os prémios que promovem privilegiam precisamente as reportagens fotográficas, em vez das imagens isoladas e demasiado presas à actualidade. O principal vencedor deste ano, por exemplo, foi um trabalho sobre o suicídio de um rapaz de 12 anos nas margens do rio Tua, alegadamente por ser vítima de bullying. E o olhar do fotógrafo Nelson d'Aires, do colectivo Kameraphoto, centrou-se menos nas operações de busca do corpo e mais nas dúvidas e na incompreensão da família. A intemporalidade do tema não lhe roubou aparentemente qualquer importância.

O júri reune sempre alguns dos nomes da fotografia mundial, muda-se de armas e bagagens para Mora, ocupa a vila durante uma semana. A RTP e a Lusa dão um pequeno patrocínio, mas a fatia de leão é paga pela autarquia. No final da entrega dos prémios, há uma churrascada, bebe-se tinto, discute-se o futuro da fotografia no local onde faz mais sentido fazê-la. E o Alentejo vai ficando no mapa, garante Luís. «Há um dias, recebi uma mensagem da presidente do júri do World Press Photo, a dizer: já se fala de Mora como de Nova Iorque. Eu ri-me, mas depois dei por mim a pensar nisto: se os prémios fossem em Lisboa ou no Porto, conseguias ter a mesma reacção?»