Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

A estrada tem agora menos curvas e menos árvores. A rota entrou definitivamente no Alentejo, prova disso é que há campos de girassóis e ninhos de cegonha por toda a parte. Tempo quente, sempre acima dos 40. Talvez por isso a sonoridade tenha ritmo africano, Amadou e Mariam cantam Sabali, palavra maliana para paciência. No caminho para Alcáçovas, Viana do Alentejo, há pastores a ocupar as margens do alcatrão e junto a eles desfila o gado – vacas, ovelhas e cabras. A cada passo de cada animal do rebanho a música do badalo ecoa pela planície. É uma partitura pecuária, esta. Adiante, à entrada da vila, estão o maestro e o compositor da sinfonia.



Guilherme Maia e Francisco Cardoso, ambos com 37 anos, são donos da fábrica de chocalhos Pardalinho. O pai do primeiro, chocalheiro desde gaiato, ensinou a arte ao segundo. Francisco é o homem da técnica, Guilherme o dos contactos. «Fomos colegas de escola, somos amigos desde miúdos. Fazemos uma boa dupla», ri Francisco. O outro complementa: «Então decidimos tornar-nos sócios e investir nisto. Os mestres chocalheiros estão todos a morrer, mas o negócio vai de vento em popa. Nunca pensámos que a coisa corresse tão bem.»

Entre o mercado português, espanhol e francês, vendem mais de 20 mil chocalhos por ano. Podem trabalhá-los na forma e brazoná-los, se for esse desejo do cliente. Só não lhe botam o sino, isso é tarefa de cada pastor, para que possa criar um timbre próprio para o seu rebanho, e reconhecer o gado em qualquer circunstância. A maioria da produção é para ser usada pelos animais, mas dez por cento é para decoração. «Em Março abrimos uma fábrica em Alcáçovas e estamos a conseguir aumentar a produção. Aliando as técnicas antigas às novas tecnologias não só se consegue preservar a arte, como torná-la rentável», esclarece Guilherme. Foi em Setembro de 2009 que deitaram realmente mãos ao projecto. Faziam os chocalhos e iam para as feiras vendê-los, até ganharem uma carteira de clientes que assegurasse encomendas. Agora, o problema é dar resposta à procura. »



O antropólogo Paulo Lima tem sido um dos maiores apoios dos chocalheiros. Até porque anda a preparar a candidatura do chocalho ibérico a Património Imaterial da Humanidade. «A UNESCO tem uma lista de urgência e é precisamente nesse sector que estamos a concentrar forças. É um ofício à beira da extinção e estes rapazes são o único exemplo a contrariá-lo.» O chocalho é arte com dois mil anos e, nas suas palavras, o maior sinal de transumância a oeste dos Pirinéus. Envolve conhecimentos de música, acústica e fundição. Tem inúmeras potencialidades ao nível do design.

Dentro da fábrica, Francisco vai dobrando a chapa em volta da bigorna. Guilherme fica no escritório, a firmar contratos. Juntam-se para uma pausa e Francisco larga uma interpretação menos científica da história. «Um chocalho é uma espécie de GPS do gado. Pelo som, o pastor sabe que o borrego está a comer, a cabra a dormir ou que um porco anda perdido.» Os homens percebem a importância história do objecto e até gostam de ouvir falar dos Sim-Sim, uma família de chocalheiros instalada na região há séculos. «Mas uma coisa é certa», e Guilherme é todo pragmatismo, «não nos íamos dedicar aos chocalhos se eles não fossem rentáveis. E a verdade é que fizemos a vida a lembrar-nos do que toda a gente tinha esquecido.»