Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

A viagem começou num dos mais belos pedaços de território português e vai terminar noutro. Oeste, depois sul. O bólide rola suave a caminho do mar e, em abono da verdade, as histórias andavam demasiado longe do Atlântico. Nenhuma rota portuguesa pode cumprir mil quilómetros sem roçar o oceano, nem é justo que assim seja. Evitem-se os aglomerados e o Algarve que o turismo estragou. O caminho é a Costa Vicentina, no barlavento, onde as praias não contam magotes e o mar é crispado. Paragem entre a Carrapateira e Sagres, numa aldeia chamada Pedralva.



António e Filipa Ferreira são literalmente os donos da povoação. A aventura deles começou em 2005, quando compraram uma habitação em ruínas no povoado. «Um ano antes tive um susto que me fez despertar para a vida», conta António, hoje com 39 anos. «Eu era publicitário, tinha subido muito rápido na carreira e estava a ganhar muito dinheiro. Mas tive um ataque de stress e percebi que tinha de mudar alguma coisa na minha vida.» A aquisição da casa em Pedralva, no ano seguinte, teve contornos de premonição.

Na altura, a aldeia estava praticamente abandonada. Existia uma pizzaria, que ainda funciona, e meia dúzia de habitantes. Electricidade não havia, água canalizada também não, ruas pavimentadas eram um sonho distante. «Num espaço de dois meses comprámos as ruínas de três casas», lembra Filipa, «a preços bastante acessíveis.» E um dia António veio espreitar as propriedades. «Passou-me pela cabeça a imagem de uma povoação arranjada, de casas brancas e o projecto começou a desenhar-se na minha cabeça.» Iam transformar a aldeia em turismo de aldeia.



Juntaram-se a alguns amigos lisboetas para terem capacidade de investimento. Conseguiram aos poucos comprar 24 casas, quase todas em estado de decadência. Depois vieram as obras. António despediu-se, preparou-se para uma nova vida. Há um ano, conseguiram finalmente abrir portas. «O conceito que explorámos nunca foi o de ter um hotel que fosse uma aldeia, antes quisemos oferecer uma experiência genuína de aldeia», diz ele. As casas não têm televisão, há uma horta e passeios de burro, recuperaram as festas que a desertificação tinha engolido. E, claro, trouxeram o conforto que faltava: electricidade, água, pavimentos e internet, que só há uns meses chegou.

Filipa não tem dúvidas de que a mudança foi para melhor. «Não temos uma vida tão opulenta, mas somos muito mais felizes, como família e enquanto indivíduos. Estamos a criar os nossos filhos de uma maneira bem mais saudável, o que não tem preço.» António apressa-se a concordar. «Na cidade tu és a peça de uma engrenagem, tens de ter bens de consumo que não são para ti, são para os outros verem. Que raios, um carro não precisa de ser um topo de gama, precisa de andar. Um telemóvel serve para comunicar. Aqui, concentras-te no que é realmente essencial. Ganhas paz e tempo.»

Agora estão a dar uma volta pelas ruas da aldeia que é sua. O golpe de génio dos Ferreira não foi ter comprado uma aldeia, foi tê-la recuperado com bom gosto. Há um largo com mesas e cadeiras, um marco de correio antigo, uma velha carrinha pão de forma para fazer serviços e apanhar clientes. Nada aqui é ao acaso. Pode-se sempre argumentar que António e Filipa tiveram uma capacidade financeira excepcional para investir neste projecto. Mas ninguém pode negar que arregaçaram as mangas e construiram, num lugar improvável, um cenário para a sua felicidade.

A história deles pode ser diferente da do pastor que começou a fabricar sabonetes, dos tipos que se puseram a organizar concursos de lançamento de aviões de papel, dos amigos de infância que viram nos chocalhos a oportunidade de uma nova vida. Mas, bem vistas as coisas, também não é difícil estabelecer-lhes as semelhanças. Ao longo de mil quilómetros, deu-se voz ao país inconformado. Tanta banda sonora passou por esta reportagem que é justo terminá-la com um mestre – David Bowie. A música é o Heroes. E nem é preciso explicar porquê.